Entrevista
Informação científica para ampliar o horizonte dos jovens e futuras escolhas profissionais
A nossa Newsletter traz mensalmente entrevistas nas diferentes áreas de interesse para os radioprotecionistas. Este mês entrevistamos Wilson Seraine, membro da diretoria da SBPR, Secretário Regional de Teresina (PI).
DENISE LEVY: Diante de seu destacado percurso na educação junto a jovens técnicos e universitários, qual é, a seu ver, a principal lacuna dos jovens que terminam o Ensino Médio em relação aos conhecimentos básicos de tecnologia nuclear e proteção radiológica?
WILSON SERAINE: Bem, primeira coisa e o maior problema, a formação dos professores. Isso é fundamental: a melhoria na formação dos professores de física. Eu me formei em física na UFP e fui professor no Curso de Licenciatura em Física no IFPI. Nenhuma disciplina tinha no seu ementário algo sobre as radiações ionizantes. Nenhuma disciplina para discutir a questão energética nuclear. Então, como esse cidadão (professor egresso) vai passar as informações para o ensino médio, para o seu educando? Nunca vai passar, porque não sabe de nada, não tem formação e informação. Então, o ensino médio na questão das radiações, é resumido, simplesmente, à química da radioatividade, basicamente decaimento radioativo e com erros básicos. Enfim, nesse primeiro questionamento a maior lacuna que o jovem do ensino médio tem com relação ao conhecimento, é exatamente a questão da formação dos professores. É uma questão fundamental, a reformulação curricular no curso de física, tanto licenciatura quanto bacharelado para ter minimamente informações aos professores sobre a questão das radiações ionizantes, a questão da tecnologia nuclear e a proteção radiológica.
DENISE LEVY: Enquanto educador você aposta na interdisciplinaridade para levar o conhecimento aos alunos do Ensino Básico, com auxílio da cultura regional nordestina, notadamente a chamada Literatura de Cordel. Como essa abordagem pode auxiliar o ensino da ciência, em especial da radioatividade, aproximando os jovens estudantes do conhecimento científico?
WILSON SERAINE: A literatura de cordel foi a base da nossa dissertação de mestrado: "A literatura de cordel como texto auxiliar no ensino fundamental". Notadamente no ensino de ciências. Por que o cordel? Ele tem uma coisa bem diferente da maioria das formas de literatura: a rima. Esta facilita o aprendizado, facilita a memorização. O cordel, diferentemente do que muitos pensam, não fala só sobre vaqueiros, sobre a questão da seca, sobre as questões do Nordeste como foi pintado por muitos para o mundo do sul e sudeste do país. O cordel versa sobre todos os temas e sobre todas as questões da sociedade, em especial sobre as ciências. Temos um novo livro, filho da pandemia chamado “A Radioatividade em Literatura de Cordel”, que teve origem num artigo que publicamos na RADIO 2019. Ampliamos o artigo e discutimos cinco cordéis. Fizemos uma análise não muito detalhada, esse detalhamento fica a cargo do professor, acerca do que os poetas escreveram, e passar isso para os estudantes. Já discutimos isso aqui no Instituto, em turmas passadas. Colocamos versos e pedimos a opinião dos alunos, foi quase unanimidade ver como é que o poeta popular, que é o reflexo da população, vê a energia nuclear e as radiações. Ele vê a energia nuclear com maus olhos. Então nós professores temos que mostrar, não somente através da literatura de cordel, mas de todas as formas e mecanismos que a instrumentalização pedagógica nos permite, que a energia nuclear tem mais benefícios do que malefícios. A maioria dos estudantes não sabe. Então a gente pode usar artifícios como a literatura de cordel, pra suscitar a discussão entre os bens e os males causados pela radiação. A gente vê que eles (os estudantes) se interessam mais, ficam com mais vontade de aprender sobre esse tema, um tema tão palpitante, tão agradável de estudar, quando apresentado de forma adequada.
DENISE LEVY: Ainda em relação à comunicação da tecnologia nuclear para suscitar o interesse de jovens estudantes. Você implementou um memorial no IFPI sobre ciências nucleares e radiológicas. O que o instituto apresenta em seu acervo para aproximar radioproteção e jovens estudantes? Como ações como esta podem colaborar para ampliar o horizonte dos jovens e suas futuras escolhas profissionais?
WILSON SERAINE: Bem, a gente não implementou ainda. Estamos juntando o que podemos de materiais, detectores antigos e novos, doações do IPEN, simulador de gamagrafia industrial, detectores de fumaça, mostradores de relógio, material de radioterapia, medicina nuclear... Tudo isso a gente está juntando para mostrar aos jovens a grandiosidade que são as ciências radiológicas e nucleares. Nossa intenção é montar um espaço para colocar esse material. O nosso intuito é convidar os jovens do ensino médio, para que venham ao instituto conhecer - monitorados por mim ou por outros professores - as diversas aplicações das ciências radiológicas e nucleares. Fazendo com que se consiga aumentar o interesse para com nosso curso de radiologia. Quando assumimos a coordenação há três anos, nosso curso era basicamente somente na área de saúde. Entamos com o intuito de mostrar mais sobre a questão da área industrial. Para tanto, fazemos visitas a Scaners, à fábrica da AMBEV, para vermos diversos medidores nucleares, trazendo pessoas de fora (presencialmente ou virtualmente), do Rio de Janeiro preponderantemente pra dar palestras, que são SPR de várias áreas. Então, com esse trabalho do memorial, do pequeno museu, das visitas técnicas, visamos dar mais vida às ciências radiológicas aqui em Teresina no Piauí.
Wilson Seraine é graduado em Física, com especialização em Proteção Radiológica em Aplicações Médicas, Industriais e Nucleares. É mestre em Ensino de Ciências e Matemática URCA/RS, Doutorando em Engenharia Nuclear COPPE/UFRJ. Professor de física no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI) e coordenador do Curso Superior de Tecnologia em Radiologia (ENADE 4). É autor de 14 livros nos segmentos de educação e cultura, integra diversas academias e conselhos regionais e nacionais nas áreas de ciências, artes e letras. É Conselheiro Efetivo do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Piauí, membro vitalício da Academia de Ciências do Piauí e apresenta o programa semanal "A Hora do Rei do Baião" na FM Cultura de Teresina do Piauí.