Entrevista
Aceitação pública da tecnologia nuclear e a necessidade de formar multiplicadores da informação científica
A nossa Newsletter traz mensalmente entrevistas nas diferentes áreas de interesse para os radioprotecionistas. Em consonância com os esforços internacionais de comunicação com a sociedade, a Sociedade Brasileira de Proteção Radiológica traz este mês a questão da disseminação da informação e aceitação pública da tecnologia nuclear. Lourdes Torres é argentina, cientista, mãe e educadora, entre muitas outras coisas. Uma profissional das ciências nucleares que desenvolveu um programa de formação para professores. Um assunto de grande interesse à comunidade, uma vez que a educação é a base da sociedade e os professores são os principais multiplicadores da informação diante das gerações jovens.
DENISE LEVY: Dra. Lourdes, além de seu trabalho no Centro Atômico de Bariloche, no reator RA-6 e como professora no Instituto Balseiro, você trabalha há alguns anos desenvolvendo cursos para alunos e professores, dos anos iniciais da escola primária aos anos finais do ensino superior. Qual foi o propósito e as estratégias empreendidas para esta importante iniciativa?
LOURDES TORRES: Sempre tive um gosto especial pela docência, assim que me formei comecei a trabalhar como professora de Matemática e Física em escolas de ensino médio e em institutos de formação de professores. E abordei especificamente a questão da radiação, radioatividade e as aplicações da energia nuclear em 2006 a partir de uma experiência pessoal. Quando meu filho entrou no jardim de infância, ele convidou um amiguinho para brincar na minha casa e a mãe não permitiu porque moramos no bairro do Centro Atômico de Bariloche onde está localizado um reator de pesquisa. Percebi que a sociedade não tem uma visão positiva da energia nuclear e suas aplicações e foi aí que surgiu o projeto Radiação na Vida Cotidiana. A estratégia consiste em centrar-se na comunidade educativa, tendo em conta que a formação de professores é um aspeto fundamental e que os professores são os principais multiplicadores e motivadores dos seus alunos. São realizados cursos para professores e professoras de todos os níveis, oficinas para alunos de nível médio, palestras em escolas, presença com estandes em feiras de ciências etc. O projeto também conta com atividades voltadas para o público em geral, como palestras e estandes em diversos eventos, como Tecnópolis ou a Feira Internacional do Livro de Buenos Aires.
DENISE LEVY: Você tem um livro publicado, de livre acesso ao público, que possui 17 sequências educativas com as diversas aplicações da radiação e da radioatividade. Como foi concebido e executado o projeto deste formidável Caderno para Professores?
LOURDES TORRES: O livro surgiu por dois motivos, um a pedido dos professores que realizaram os cursos de formação porque comentaram que não encontravam material sobre radiação, radioatividade e suas aplicações dedicadas especificamente ao trabalho em sala de aula e outro para obter a declaração de interesse do Ministério da Educação da Província de Río Negro que solicitou bibliografia específica sobre o tema, adequada às demandas curriculares de nível médio e fundamental. De ambas as situações comecei o livro, com base nos recursos pedagógicos que havia elaborado para os cursos e atividades do projeto. Além disso, convidei professores a participar como colaboradores contribuindo com a elaboração de sequências didáticas para o livro. Como resultado deste convite, “Radiação na vida cotidiana – Guia para professores” tem 17 sequências didáticas, generosamente cedidas por mais de 30 professores, a partir do nível inicial de formação de professores. Ressalta-se que o livro foi feito ad honorem por todos os participantes e pode ser baixado gratuitamente no repositório institucional do Instituto Balseiro. Foi apresentado na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires em maio de 2019 e atualmente conta com mais de 20.000 downloads, principalmente da Argentina e da América Latina.
DENISE LEVY: Durante a pandemia, você continuou trabalhando na disseminação da informação, de forma criativa e assertiva, com a criação de um canal no YouTube que hoje conta com 30 vídeos e 588 inscritos. Quais os desafios e conquistas desta iniciativa?
LOURDES TORRES: O ano de 2020 com a pandemia e o isolamento social, preventivo e compulsório, levou o sistema educacional a modificar seu funcionamento tradicional e começar a realizar suas atividades virtualmente. Nesse contexto, para dar continuidade às atividades do projeto Radiação na Vida Cotdiana, desenhei novas atividades de cunho virtual, entre elas um canal no YouTube. Em meados de 2020 foi publicado o primeiro vídeo e a partir de então vários professores entraram em contato sugerindo temas para novos vídeos para uso em suas aulas como material pedagógico. Os objetivos para a concepção deste material foram vídeos curtos, divertidos e com linguagem acessível, mantendo o rigor científico dos temas abordados. Destinam-se principalmente ao nível primário e secundário e têm uma duração média de 4 minutos. Eles abordam questões de Física Nuclear, Radiação e Radioatividade, Aplicações da energia nuclear, Fissão Nuclear etc. Todos os vídeos do canal foram feitos ad honorem, seguindo a temática do livro. Atualmente o canal conta com 30 vídeos e mais dois serão publicados nos próximos dias para completar o tema da Fissão Nuclear.
Lourdes Torres é engenheira eletrônica formada pela UTN, especialista em aplicações tecnológicas da energia nuclear e doutora em ciências da engenharia formada pelo Instituto Balseiro. Pesquisadora da Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA) e participou da Área de Neutrônica dos projetos AtuchaII e CAREM. Atualmente trabalha no projeto de instalações para o reator de pesquisa RA-6. Diretora dos projetos “Aplicações de Reatores de Pesquisa” e “Radiação na vida cotidiana”. Professora da carreira de engenharia nuclear do Instituto Balseiro e da Faculdade de Física da UNRN. Membro do comitê executivo da WIN Global. Membro do comitê editorial da EDIUNC.
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